terça-feira, 30 de junho de 2009

Werther

Cada uma de suas palavras penetrava-me no coração como uma punhalada. Ela não sentiu que, ao menos por piedade, devia calar tudo aquilo, e continuou a explicar como ainda glosam o incidente, como certas pessoas se mostram triunfantes, como há quem malignamente se rejubile por me ver punido pela atitude presumida e desdenhosa que há muito me viham censurado. Ó Wilhem, ouvir tudo isso daquela bôca e no tom da mais sincera simpatia!... Fiquei transtornado e mantenho ainda o coração cheio de ódio. Queria que alguém ousasse repetir-me tudo isso para atravessar-lhe a minha espada de lado a lado, porque só o sangue poderá acalmar-me. Oh! cem vezes já peguei o punhal para livrar meu coração do peso que o esmaga. Conta-se que há uma briosa espécie de cavalos que, perseguidos, quando se vêem demasiadamente excitados têm o instinto de abrir uma veia com os dentes para não rebentarem sufocados. Sinto às vezes vontade de fazer o mesmo: abrir uma veia e conquistar assim, para sempre, a liberdade.

Nossa imaginação, levada pela sua própria natureza a exaltar-se, e, ainda, excitada pelas figuras quiméricas que lhe oferece a poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar ínfimo. Tudo quanto se acha fora de nós parece mais belo, e todos os homens mais perfeitos do que nós. E isto é natural porque sentimos demasiado as nossas imperfeições e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Em conseqüência, nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos e, para coroar a obra, concedemos-lhes também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço. E eis esse bem-aventurado mortal convertido num conjunto de perfeições por nós mesmos criadas.

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