terça-feira, 30 de junho de 2009

Sem título

De manhã acordava nalguma festança
acordava e lembrava que cai na gabança
e por toda a noite, com clamor
tinha a companhia de uma bela flor.

Eram jovens e firmes e em vinho imersas
Fanfarronices e conversas
se resumiam, eu me mantinha seguro e calmo
No leito me deixava pelo instinto ser guiado

Sorria e olhava aqueles corpos em volta
e dormia ainda com o copo cheio em mão
Gritava: Cada um à sua moda!

Mas há uma só na região,
que se iguale àquela que não pode ser minha?
Que chegue aos pés daquela que é a minha vida?

"Bohemia! Comida! Digam sim à razão!"
gritavam todos, sem razão, em torno,
"Do sexo inteiro, quero ser teu adorno"
gritava aquele menos gabão

Mas se aqui continuar vou endoidar, eu juro!
Dar com a cabeça contra um muro!
Sem moças ou putas, não quero essa troça
quero algo que me valha

não serei insultado por qualquer canalha
pois aquela sim é uma mulher de respeito.
Aquela assim faz tremer o meu peito!
Que morra esse bando todo
não agüento mais viver entre o lodo...

Werther

Cada uma de suas palavras penetrava-me no coração como uma punhalada. Ela não sentiu que, ao menos por piedade, devia calar tudo aquilo, e continuou a explicar como ainda glosam o incidente, como certas pessoas se mostram triunfantes, como há quem malignamente se rejubile por me ver punido pela atitude presumida e desdenhosa que há muito me viham censurado. Ó Wilhem, ouvir tudo isso daquela bôca e no tom da mais sincera simpatia!... Fiquei transtornado e mantenho ainda o coração cheio de ódio. Queria que alguém ousasse repetir-me tudo isso para atravessar-lhe a minha espada de lado a lado, porque só o sangue poderá acalmar-me. Oh! cem vezes já peguei o punhal para livrar meu coração do peso que o esmaga. Conta-se que há uma briosa espécie de cavalos que, perseguidos, quando se vêem demasiadamente excitados têm o instinto de abrir uma veia com os dentes para não rebentarem sufocados. Sinto às vezes vontade de fazer o mesmo: abrir uma veia e conquistar assim, para sempre, a liberdade.

Nossa imaginação, levada pela sua própria natureza a exaltar-se, e, ainda, excitada pelas figuras quiméricas que lhe oferece a poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar ínfimo. Tudo quanto se acha fora de nós parece mais belo, e todos os homens mais perfeitos do que nós. E isto é natural porque sentimos demasiado as nossas imperfeições e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Em conseqüência, nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos e, para coroar a obra, concedemos-lhes também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço. E eis esse bem-aventurado mortal convertido num conjunto de perfeições por nós mesmos criadas.

domingo, 28 de junho de 2009

Hell is around the corner

Não torne o sentido motivo de Idolatria,
Não o chame de Ídolo, pois a ninguém se alia.
Este é o grito que hoje proclamo,
A favor de tudo aquilo que amo.

Não deixe o sentido ao teu lado galante,
Esse é válido somente aos pedantes.
Sua ausência não me faz diferença...
Pelo contrário, prossigo com excelência...

Procuro o surreal em tudo aquilo que primo,
E de uma só maneira, abro os olhos, concentro...
Se o encontro, "catarse", eis o que exprimo.

Perco os sentidos, acelero o movimento...
Se foi forjando o meu sentido outrora,
Prefiro viver a loucura agora.

Stitches...

Como me têm sido caras as noites posteriores ao seu encontro. Acabei de ler Wherter e ao que tudo indica não vou ser capaz de dormir tão cedo… Enquanto essa cidade morre, me mantenho aparentemente calma, esperando que nuvens envolvam a lua e todas as estrelas se apaguem…

É horrível essa sensação de que cada raio me guia a todas as direções dessa cidade morta, a vontade que tenho de morrer de frio perto do lago, me sentindo atriz principal de um filme clichê… E a vontade que eu tenho de volta a fumar aquele mesmo cigarro que fumei do seu lado naquela tarde, na mesma tarde, na mesma hora, na mesma felicidade. Explosões hormonais, talvez, mas nada que não se confunda com um sentimento de plenitude na alma. A vontade que eu tenho de ir para qualquer lugar e ouvir a água rumorosa e afogada na própria água.

Essa porra de utopia e oceano mental…

Até a cidade morta parece harmoniosa agora, me produzindo a débil voz do perpassar dos carros, nem mesmo o vento urge agora. Esse luto todo da cidade será por que você dorme agora? Você dorme agora? Que durma, que não se preocupe com a dor que me faz gastar reticências…………. reticências que esperam a manhã, para esperar amanhã, e outro amanhã, e todas as manhãs necessárias para te esquecer, até que eu atinja a grande utopia da minha vida: aquele chocolate quente, música, a noite chuvosa, fria ou não. Contanto que eu me tenha todos os dias e esqueça de todas as tardes dormidas na sua cama.

Mais estranha e mais cara que essa noite de pseudo-insônia é a maneira que minha vida se desfaz como um sonho, bastam cinco minutos para que me perca e esqueça o que faço coma caneta na mão. Posso regressar dessa morte viva?

Talvez, quando a noite estiver perto do fim, e o vento voltar a perpassar na cidade junto aos carros… se eu não estiver ainda chorando a morte daquela tarde, fazendo os que moram ao meu lado temer e amar a minha voz, pois há de ser doce chorando o seu nome…

Um dia eu canso de sentir essa saudade dolorosa que cansa, e ainda agita por não ser passível de asfixia num abraço.

Só me resta a nostalgia de um abraço que extinguiu o mundo, a ponta de um cigarro, e a memória do afago…

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Lasciate ogni speranza voi ch'entrate...

Aqui a asa não sai do casulo, o azul
não sai da treva, a terra
não semeia, o sêmen
não sai do escroto, o esgoto
não corre, não jorra
a fonte, a ponte
devolve ao mesmo lado, o galo
cala, não canta a sereia, a ave
não gorjeia, o joio
devora o trigo, o verbo envenena
o mito, o vento
não acena o lenço, o tempo
não passa mais, adia,
a paz entendia, pára
o mar, sem maremoto,
como uma foto, a vida,
sem saída, aqui,
se apaga a lua, acaba e continua.


Arnaldo Antunes

Algum sentido? Todos...

Sensatez

(para Sofia)

Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.

Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não
Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.

Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.

Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.

E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes.

Patricia Clemente

terça-feira, 23 de junho de 2009

R.I.P.

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera ???”
Não… e somente a ingratidão – esta pantera –
Foi a minha companheira inseparável!

Somente a ingratidão, perdida em prantos
Confusa pelo espanto
Que foi descobrir tua face…

Por cima do véu, a promessa de um sorriso
O futuro manso, quem sabe um filho
E o peito aberto a quem quer que passe…

Abaixo, inferno…
Ódio, choro, alguns cortes, traição
E a clichê desilusão…

………….. poderia ter sido o único
………….. buscou o mais fácil
………….. me deixou de lado

Em troca de um beijo? Quem sabe um abraço…
Que não tem a metade da força do meu braço

Força… coragem… é um teste? Uma prova?
Não vou chorar nem mais uma hora!
Pois eu te amei até não poder mais
Mas hoje, eu me amo…
Muito mais…

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Soneto 116

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

sábado, 13 de junho de 2009

Mãos ao alto!

- Amaaanda! O meu pé tá todo nojento! Todo cheio de lamaaa!!
- Passa a bolsa! Passa a bolsa!
- Saaai!
- Eu vou te bater!

1º golpe, seco, duro, na perna.

-Páraa!

2º golpe, mira na cabeça, acerta o ombro.

Bolsa na lama, sapato na mão, orgulho no chão.
Corre...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Platinum

Não importa a atividade física feita a 119 batimentos cardíacos por minuto, gastando 60% da freqüência máxima que meu coração poderia agüentar, tanto faz se eu passo horas em excessivos abdominais ou lavando a roupa que eu sempre deixo acumular... não me interessa nada, não me importa nada, por mais que eu deitena cama esse maldito sono não vem...
Ainda não me venci pelo cansaço e a longa caminhada de insônia que eu tenho pela frente só me faz deixar mais e mais pensativa, mais e mais poética, e mais e mais cansativa... tanto quanto "sacal" seria estar ao meu lado (no seu caso) mais seria feliz para mim, será?


Embriaguez, paixão e loucura.... e ainda há aquele que se conserva tão calmo, tão indiferente, aqueles, os homens de moral que esmurram o bêbado, repelem o louco cheios de asco, e passam adiante, como o sacrificador, agradecendo a Deus por não haver feito deles um desses desgraçados...

Desgraçada poderia ser eu que tenho me embriagado mais de uma vez, entre paixão roçando sempre pela loucura, seria eu, mas disso não me arrependo porque só assim chego a compreender (numa certa medida) a razão porque em todos os tempos sempre foram tratados como ébrios e loucos os homens extraordinários que realizaram grandes feitos, os que pareciam impossíveis, os grandes homens que amaram demais e conseguiram sobreviver... todos aqueles são os verdadeiros insensatos pois vivem num jejum forçado e louco de não morrer por amar e viver amando uma entidade que não existe!


Mas também louca sou eu, e injusta também... grande injustiça tenho feito todos os dias, com todos aqueles que me amam e me amaram, absolutamente nenhuma das juras feitas para mim me servem de alguma coisa agora! Absolutamente não amo mais a minha própriamãe na mesma medida (ainda que a considere com tamanho respeito que não demonstro e aquela ponta de gratidão que sempre me falha à memória pelos grandes atos feitos e não feitos dela para mim), grande ingratidão com meus mais verdadeiros amigos, grande ingratidão comigo...


Porque eu não fico mais quieta, mais acanhada, mais cabeça baixa? Naquele canto tal quentinho e seco perto da janela do meu quarto, eu preciso escrever! Eu preciso extravazar em caracteres frígidos todo o misto de indolência e agitação que me faz perder o maldito sono numa Quinta ou num Domingo à meia-noite e meia........(hora que tudo de ruim toma conta da cidade naqueles filmes antigos de horror, mas hora que toda a inspiração incha as minhas veias numa maldita poesia tão desgastada quanto ignorada)


Louca, embriagada e ainda poderia ser desgraçada, se por mais um instante minhas falcudades mentais perdessem o equilíbrio além daquilo que eu possa suportar...

Se me deito não tenho sono, não posso ficar desocupada e no entanto nada posso fazer, não tenho mais imaginação e os livros só me inspiram tédio... tudo me falta quando estou em falta comigo mesma...

Mas voltado à injustiça, se me permite maiores explicações, é uma grande injustiça já não amar outros na mesma medida porque todas as minhas atenções eram voltadas a você! É aí que está, é me despertar dos sonhos importunos sem perspectivas da merda de dia que eu vou ter, quando entediada eu acordo estirada sobre a minha cama te procurando, na inocente ilusão de que você estava ao meu lado, eu ainda mal acordo e te procuro tateando, até que tudo me cai e arregalo completamente os olhos à realidade, engulo a torrente de lágrimas e nos dias que sofro com pesadelos ou medo do escuro simplesmente choro contemplando cheia de amargura o dia que me aguarda......................


Injustiça a minha pobre mãe que por tanto me amar como eu era, sente raiva quando eu peço o mundo ao invés dela ... injustiça aos meus amigos que dizem me adorar, que sempre me prometem apoio no meio da madrugada, quando eu acordo em pesadelo eu penso em ligar pra você (!) mas nunca ligo, porque injustiça maior seria te acordar, porque injustiça maior ainda é pensar em dizer que te amo mais do que amo a própria vida quando eu mesma acredito que a minha vida não vale nada!


Injustiça ao mundo que me oferece condições de viver, quando eu só aceitei se tivesse a condição de viver ao seu lado..... esqueço as grandes e raras calamidades deste mundo, nada me comove, o que me dilacera o coração é essa força que está oculta em toda a natureza....


Prossigo vacilante na opressão, entre o céu e a terra com as suas forças sempre ativas... prossigo depois que um véu rasgou-se diante de minha alma e o teatro da vida infinita mudou-se, mas não num túmulo eternamente escancarado, vejo todas as forças dilacerantes com mais avidez e paradoxalmente, mais beleza ainda...


Tanto quanto se torna belo tudo aquilo que refletiu nos seus olhos quanto belos já são, servindo ou não de espelho para a minha alma ou passagem direta para a sua... "morro ante os deuses tão cedo quanto morro"... Perdoe-me as palavras um tanto quanto forçadas pra dizer a expressão mais simples, mais desgastada e menos acreditada que peita todas as forças da natureza ocultas ou não, ativas ou não.... tudo se resume àquilo sintetizado em dois pronomes e um verbo conjugado (como se a estrutura em si fosse tão simples assim).......

E foi tanto tanto tanto....

Eu te amei, eu bebi e me calei...

Remember how it was with you...

Agora sou pó, perdido nessa estante
Que alta parede é essa que me restringe?
E este tal sentimento sufocante
procurando aquele que nunca me cinge?

Como posso saber o que me falta?
Como posso saber que, talvez,
ele esteja no meio da humana malta?
Imagino-o uma ou outra vez

Mas é sempre assim!
Por que sempre ris?

Caveira oca! Foi mais esperta outrora,
agora, sedenta de saudade, é carente, infeliz.
Sempre procuro luz na penumbra afora,
parece que de mim escarneceis...

Como pude, assim, entregar-te a chave?
Como pude me deixar esculpir por teus cinzéis?
Por favor, não removeis nenhum entrave

A minha natureza, jamais arrancas
Ou em pouco tempo serei entulho velho, usado
E tudo que digo são apenas dores humanas...

Será que irei dizer, certa vez me usou?
Será que um dia serei corpo ofuscado?
Não sou nada além de um cigarro que apagou
Mas afinal, o que não se usa é um fardo, nada mais

Adquire, para que me possuas.
Esse fardo, afogado em dor e paz
No fundo o que sentes, são só criações suas...

domingo, 7 de junho de 2009

Sleep tight tiger

Insônia… mais uma vez me acompanha… Já estou até começando a gostar dela, pelo menos eu sei que, quando deitar na cama, terei companhia… E, especialmente nessa insônia de hoje, parei para me fazer a seguinte pergunta: “Eu estou seguindo a vida do jeito que quero?”. A resposta é fácil vai… logicamente não. Depois me perguntei: “Eu sou feliz?”. Essa sim é uma questão difícil… eu sou feliz?

Às vezes quando eu fico diante desse problema, eu me consolo afirmando que a felicidade não é “ser”, mas “estar”. Então tenho menos peso na consciência ao responder “não, não estou feliz”. Mas eu conheço a felicidade, já esbarrei com ela várias vezes, já cheguei a caminhar com ela, de mãos dadas, como melhores amigas, achando que ela nunca me trairia… Já conheci um mundo pintado de cor-de-rosa e já distribuí sorrisos sinceros. Mas não é diante dela que estou agora…

Estou ante um mundo que eu nunca conheci antes, estou vivendo em um corpo que eu nunca conheci antes. Percebi o tanto que me deixei levar pela matéria, e o tanto que joguei fora da minha mente. Há quanto tempo eu não me olhava por dentro… Deixei escapar tanta coisa, a poesia, os meus desenhos e agora o meu coração (por mais que isso soe brega… foda-se o brega… não estou preocupada com ele). Deixei escapar a menina que eu era, a adolescente revoltada/revolucionária, para me tornar isso?

Percebi que agora eu sou a cópia fajuta de um adulto típico, daqueles que você pergunta “Você é feliz?” e ganha como resposta um “Eu estabeleci objetivos e alcancei todos”, como se isso respondesse alguma coisa… Eu estou andando pelo caminho certo, sei disso, sei que não é errado estudar em dois cursos, muito menos prestar concursos… mas eu deixei o principal de lado, e agora estou vendo o tanto que isso me faz falta, abandonei a minha paz de espírito. Esqueci que preciso me deixar voar e sonhar, e que a única coisa que falta é perder o medo, achando que vou cair a qualquer hora, mesmo sendo um sonho, onde eu tenho asas e conheço o céu melhor do que ninguém…

Eu não vou cair nos meus sonhos e é por isso que eu preciso deles, para quando levar um tapa na cara, desses que a vida adora dar, ter força para saber que em algum lugar eu estou voando e estou sorrindo.