sábado, 20 de fevereiro de 2010

But your voice is too loud

Recebi um daqueles e-mails com títulos merecidos pelas correntes de internet. Como o caso pareceu interessante, abri o “FWD: Acabe comhttp://www.blogger.com/post-create.g?blogID=1480044547564347145 a pena de morte para gays na Uganda”. E o texto dizia, mais ou menos, o seguinte:

“Eu acabei de assinar uma petição pedindo o governo da Uganda para retirar uma proposta de lei anti-gay que pode permitir condenar homossexuais a prisão ou pena de morte, e pensei que você gostaria de se juntar a mim - já que só temos mais alguns dias. Leia mais e assine a petição abaixo: https://secure.avaaz.org/po/uganda_rights_3/98.php?cl_taf_sign=6aiUQyxl

Realmente era interessante o e-mail, afinal não é todo dia que vemos um verdadeiro estupro dos direitos humanos (perdoem-me o termo) como esse... Principalmente se levarmos em conta a classe social em que eu (e todos aqueles proprietários de computadores que chegaram a esse blog) estou inserida. Não acreditando na lealdade da afirmação, fui atrás de artigos sobre o assunto, apesar de ser bem plausível que o país berço de Idi Amin* também seria capaz de gerar tal projeto de lei. Em poucos cliques no Google cheguei ao NY Daily News com o seguinte título, em tradução livre: “Enquanto os EUA debatem o casamento gay, Uganda considera pena de morte para homossexuais e prisão para famílias”.

Então é verdade... O século XXI conseguiu me surpreender (de novo!) em matéria de violência aos direitos do ser humano. No momento histórico em que a (esmagada) comunidade gay do continente africano começa a se tornar mais visível, há uma oposição agressivamente desproporcional. No artigo, David Cato, ativista gay após quatro espancamentos, duas prisões e a demissão do seu emprego de professor, afirma que quando finalmente os gays estão clamando por seus direitos, os atropelam com a lei.

A lei não veio sozinha, surgiu após a visita de um grupo cristão ultraconservador estadunidense que promove terapia para gays com o objetivo de “heterossexualizá-los”. Um de seus membros, padre e autor do livro “A Suástica Rosa” (entre outros manuais para os pais afastarem seus filhos do “recrutamento” homossexual nas escolas), concorda com o objetivo da lei, apesar de acreditar que seja muito drástica. É fato que dificilmente a lei será aprovada, no entanto, como todo projeto de lei, pode passar por reformas, é aí onde mora o problema. Talvez a pena de morte como punição não seja aprovada, mas e a prisão perpétua? Será que o parlamento a entenderá como uma pena mais branda e “justa”?

O projeto de lei original defende a pena capital para homossexuais ativos e soropositivos. Os que mantiverem suas relações cotidianamente também poderão enfrentar o castigo, e para piorar a situação, tal projeto não traz consigo um conceito de “relação homossexual”, dando margem para até mesmo um inocente abraço entre pessoas do mesmo sexo seja entendido como tal. Além disso, aqueles não denunciarem, bem como os que alugarem quartos ou casas para os gays, enfrentarão sete anos de prisão se condenados. Já as autoridades religiosas, políticas, econômicas ou sócias que não reportarem qualquer violação à lei, passarão por três anos de prisão.

E para acabar, David Bahati, a mente brilhante por trás do projeto de lei afirma aceitar críticas construtivas ao projeto de lei, mas considera necessárias as medidas extremistas para desencorajar que homossexuais continuem “recrutando estudantes na porta de escolas” (??? de onde ele tirou isso eu não faço idéia!).

James Nsaba Buruto, ministro do país, afirmou para o NY Daily News que a pena de morte provavelmente será revisada, mas a lei deve ser mantida para conter a influência “pecaminosa” e estrangeira, uma vez que relações homossexuais “não são naturais em Uganda” (tradução livre). E a opinião de alguns civis é parecida:

“Eu acredito que o projeto de lei é bom e necessário, mas não acho que gays deveriam ser mortos. Eles deveriam ser presos por aproximadamente um ano e avisados para nunca mais fazer isso. A família está em perigo na Uganda...”, segundo John Muwanguzi, um entrevistado.

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E lá eu me encontrava, boquiaberta, ante a tela do computador, lendo a reportagem, me deparando com fatos assustadores que todos conhecemos a existência (sim, porque TODOS sabemos que homossexuais são assassinados e, principalmente, torturados ao longo do planeta, inclusive com o apoio de certos Estados), mas ignoramos diariamente.

Enquanto isso no continente africano:

Nigéria – homossexuais são punidos com prisão ou morte.

Burundi – baniu relações entre pessoas do mesmo sexo.

Ruanda – o país está considerando banir os relacionamentos homossexuais.

Quênia – relações homossexuais são ilegais, mas o governo considera a existência no país. Ainda assim, o casamento de dois quenianos em Londres causou diversos ataques aos seus familiares no país.

África do sul – é o único país africano a reconhecer o casamento gay, no entanto existem gangues sul-africanas responsáveis pelos chamados “estupros corretivos” a lésbicas. Em 2008, uma atleta de 19 anos foi estuprada, torturada e assassinada por membros de uma dessas gangues.

Infelizmente, acumulando essas informações, lembrei que não é preciso atravessar o oceano para me deparar com esse “homocausto”, e vi que o buraco pode ser mais embaixo, dentro do meu próprio país:

- Um estudo de 2005 do Grupo Gay da Bahia revelou que menos de 10% dos homicidas homofóbicos são levados a julgamentos, ainda que haja declaração prévia do assassino “matei porque odeio gay” (sim... declaram previamente).

- A média brasileira de crimes anti-homossexuais é de 01 para cada 03 dias.

- Se posto na lista dos 25 Estados que liberam informações, incluindo Irã, Somália, Argentina, Peru e Colômbia, além dos principais países europeus, o Brasil ocupa o vergonhoso primeiro lugar, com mais de 100 homicídios anuais de gays (observe o país não disponibiliza seus dados oficialmente, os números são levantados de limitadas reportagens em jornais ou virtuais). No entanto, como os dados não são oficiais, há possibilidade dos números reais atingirem o dobro.

- O principal método de “extermínio” homossexual tupiniquim é a tiros, seguido de facadas, pedradas, asfixia, espancamento e enforcamento. A idade das vítimas varia entre 12 a 82 anos.

- E alguém lembra aqueles dois sargentos do exército que assumiram um relacionamento de 10 anos em 2008? O Fernando de Alcântara e o Laci Marinho? Na capital do país, Laci Marinho foi torturado em uma carceragem da PE.

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Continuando... na capital federal...

- O Correio Braziliense afirmou em 2007 que 07 a cada 10 homossexuais, bis e trans são vítimas de discriminação devido à orientação sexual. Sendo que, no mínimo, 59% já sofreram uma ou mais agressões.

- Segundo a antropóloga Regina Facchini, o ambiente do estudo permite uma análise ainda mais assustadora. “Se observada a dimensão dos dados teríamos mais de 1milhão de casos de agressão, dos quais quase 300 mil seriam somente de violência física”, destaca.

- Nesse mesmo estudo, dos 800 entrevistados (para representar os gays em um universo de 190 milhões de brasileiros), 6% foram sexualmente molestados.

- Quase metade (48%) dos agressores são pessoas desconhecidas, que praticaram a violência em locais públicos. O segundo lugar onde mais são praticados atos de violência contra homossexuais é o ambiente doméstico. Os próprios parentes foram apontados como 12% dos agressores.

- O rosto do agressor pode ser visto principalmente em ambientes divididos com amigos ou vizinhos (32%), nas escolas ou nas faculdades (29%) e, mais uma vez, no ambiente familiar (26%).

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- Apenas 5% dos casos de agressão contra homossexuais são investigados.

- E só para frisar... Os crimes homofóbicos são marcados pela crueldade do modus operandi dos autores, quase sendo regra a tortura prévia da vítima, a utilização de diversos instrumentos mortíferos e o elevado número de golpes.

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Enfim... espero que alguém se interesse por esse texto... e termino dedicando cada parte da minha indignação ao menor F.B.S., que em 2000 foi espancado e molestado por sete homens, obrigado a fazer sexo oral em três deles e torturado por 03 horas. Também dedico essas palavras: a Élcio de Oliveira, 31 anos, garoto de programa na ruas centrais de Belo Horizonte e encontrado morto com um pedaço de madeira de 60 cm introduzido no ânus; ao professor Benemi Passo, 33 anos, cujo corpo foi encontrado completamente carbonizado; a Sebastião Pereira Matos, 60 anos, morto por espancamento após ter os pés amarrados, e a todas as lésbicas que sofrem estupros, torturas e assassinatos nesse país de bundas, carnaval e sexo oral em horário nobre da TV.... Afinal, imoral é aquilo que se faz entre quatro paredes...

ps: só para não esquecer... o abaixo-assinado contra o projeto de lei ainda está online - https://secure.avaaz.org/po/uganda_rights_3/97.php?cl_taf_sign=6aiUQyxl

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Pára, eu tenho medo!

Outro dia conversava com um amigo, um cara inteligente e bacana, sobre os livros que tenho lido. Por fim, ele me disse: “Tenho medo de feminista”.

E fiquei pensando em medos. E nas coisas de que tenho medo.

É mais ou menos assim: tenho medo de namorados que acham que podem matar namoradas. Eu tenho medo de crimes “passionais” que são mais ou menos regra. Eu tenho medo do que podem chamar de honra. Eu tenho medo de pais que saem para passear de avião com suas filhas. Eu tenho medo de padrastos tarados, de pais, irmãos, tios e cunhados idem. Tenho medo da invisibilidade e da impunidade cotidiana. Eu tenho medo de quem não respeita criança. Eu tenho medo de dogmas. Eu tenho medo da Igreja católica. Tenho medo de que uma mulher seja obrigada a levar uma gravidez a termo, mesmo que ela seja fruto da maior violência que alguém pode sofrer.

Tenho medo de estradas e de pessoas agressivas ao volante. Eu tenho medo de armas e das coisas que homens malucos podem fazer com elas. Tenho medo de polícia e de bandido. Tenho medo de uma justiça que só serve para alguns. Tenho medo de que minhas filhas tenham que ouvir as mesmas cantadas nojentas que sempre ouvi de desconhecidos. Tenho medo de que elas sejam vistas como coisas. Eu tenho medo de que elas achem que precisam ter 40 quilos pra se sentirem bonitas. Tenho medo da quantidade de silicone implantada nos peitos femininos. Tenho medo de ser confundida com uma fruta qualquer. Tenho medo dessa mania de plástica, de Botox e da proibição à velhice para as mulheres. E de muitas outras coisas.

Mas de feminista, meu amigo, não tenho medo, não.

Juliana Sampaio e Juliana Guimarães

Along comes tomorrow

- Segundo a OMS, 70% das mulheres assassinadas no mundo são vítimas de seus próprios companheiros.

- Um em cada cinco dias de falta ao trabalho no mundo é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas.

- No Brasil, o Ibope mostra que 33% da população aponta a violência contra as mulheres como o problema que mais preocupa a brasileira na atualidade – mais do que o câncer de mama e o de útero (17%) e a Aids (10%).

- No Brasil, mais de 2 milhões de mulheres são espancadas a cada ano por maridos ou namorados atuais e antigos.

- Na mesma pesquisa, 14% dos entrevistados acreditam que a mulher deve agüentar agressões em nome da estabilidade familiar.

- 19% dos homens admitem que existem situações que permitem a agressão, assim como 13% das mulheres. 68% da população brasileira conhece a lei Maria da Penha e sabe da sua eficácia (83%).

- Em 2005, nos primeiros quatro meses de funcionamento do telefone nacional da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, houve 14.417 denúncias.

- Depois da aprovação da lei Maria da Penha, em 2006, as denúncias deram um salto: de janeiro a junho de 2008, foram registrados 121.891 atendimentos, um número 107,9% maior que no mesmo período de 2007 (58.417).

- A busca por informações no Ligue 180 sobre a lei Maria da Penha no primeiro semestre de 2008 cresceu 346% – foram 49.025 este ano contra 11.020 no primeiro semestre de 2007.

- Em 61,5% das denúncias de violência registradas no Ligue 180, as usuárias do serviço declaram sofrer agressões diariamente.

- Em 63,9% dos casos, os agressores são os próprios companheiros.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Tempo!

Fim de semestre... milhões de provas, trabalhos e o tempo cada vez mais curto... é a vida moderna e seus prazeres... Até escreveria mais sobre o "caso Uniban", mas até essa notícia já virou história do passado...

Como farei uma prova em menos de 40 minutos, sequer posso fazer um post decente sobre alguma notícia bombástica ou a presença do Ahmadinejad em Brasília...

Mas termino esse pequeno texto apontando para a esperança de ver o Flamengo campeão, sei que isso não tem absolutamente nada a ver com o teor majoritário do blog... mas dane-se... "final" de Brasileirão não se fala em outra coisa...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Enquanto isso na Unibam

Já ouvi diversos posicionamentos sobre o caso da estudante covardemente insultada e sua minissaia... afinal de contas, escâncalos são excelentes tópicos de conversas de butiquim.

Dentre as diversas filosofias, e mais eloqüentes teorias, há duas e principais correntes. A primeira assegurando que a dita estudante fez por merecer, pois convenhamos.... micro-minissaia não tem lugar em faculdade. E a segunda corrente é apoiada por mentes mais "liberais", defensoras da garota e crentes que a Uniban é formada apenas por gordas e gays (por favor, percebam o tom irônico da situação todas).

Sem querer entrar no mérito do porquê um vestido vermelho foi usado aquele dia, ou a preferência sexual dos estudantes, vejo aqui duas situações ainda mais alarmantes. A primeira delas, já conhecida por muitos, é essa doença social que afeta o país há sabe-se lá quantos anos (se não é desde que o Brasil se entende por Brasil) e irritantemente insiste em esconder os mais diversos tipos de intolerância arraigados no nosso sangue. Somo "liberais" e simultaneamente conservadores...

Como já reclamei em água passadas, louvamos bundas carnavalescas e prezamos pelo sexo pós-casamento. Somos um país com uma porcentagem gigantesca de divórcios, mas mantemos a família como pilar da nossa sociedade... sem contar que somos o país com o maior número de fiéis cristãos, e sede de aproximadamente 3 milhões de abortos ilegais e infectos por ano...

Acredito que seria excelente escrever sobre isso no "Dia Internacional da Mulher" (mas a distância da data não me permite esperar), afinal é o momento em que mais se fala no grande mito do "sufrágio universal". A maravilhosa isonomia de gêneros que, nesse país e no resto do mundo, é tão real quanto elefantes cor-de-rosa... assumam: o nosso país é machista!

Basta olhar para uma simples propagande de detergente, que não difere muito das que já existiam nos anos 50. As mulheres felizes por ganhar um liqüidificador no natal foram substituídas por mães neuróticas por limpeza. E até atrizes, dotadas daquele ar de independência adotam o estima da multi-mulher: são mães, empregadas domésticas, esposas e profissionais liberais de uma só vez. Sendo que os trabalhos mais importantes são os de empregada doméstica e esposa....

Já a segunda doença social que vejo não é típica do brasileiro, mas do globo... é a incapacidade humana de agir isoladamente, adotando o disfarce do grupo para não dar a própria cara a tapa. Sabemos que é reprovável chamar alguém de "puta", sabemos o que fazer para humilhar alguém, sabemos quando estamos cometendo um crime, e quando estamos em grupo usamos o disfarce do super-homem. Me preocupa saber que essa é a mesma fórmula usada por grupos extremistas, neo-nazis, espancadores de garçons e queimadores de índios... extirpa-se a responsabilidade se existe o grupo...

E no caso específico daquela menina, basta que um, escondido pela máscara do grupo, jogasse um caderno, uma pedra, um sapato ou um tapa, para que os outros universitários (uma das esperanças do nosso país!) agissem como uma alcatéia de hienas sedentas por carniça.

Creio a cada dia que não deveríamos usar a palavra "sociedade" para definir sociedade... Deveria se chamar Butantã...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

I said maybe

O seu olhar lá fora,
O seu olhar no céu
O seu olhar demora
O seu olhar no meu...

O seu olhar melhora o meu...

Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu

O seu olhar agora,
O seu olhar nasceu,
O seu olhar me olha,
O seu olhar é seu...

O seu olhar melhora o meu.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Oh well, whatever, nevermind

Longo deveria ser o abraço,
tão grande quanto a força do próprio braço...
e esses dois deveriam se igualar ao peso da saudade...

Saudade é vida de beira de abismo, sabendo que existe sim alguém do seu lado, mas por alguma razão, a distância é intransponível...